Piracicaba, 10 de dezembro de 2017
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“Descubra o artesão dentro de você”
O sociólogo americano Richard Sennett diz que o resgate da “habilidade artesanal” pode ajudar a reencontrar o prazer no trabalho (seja qual for a sua profissão)

Richard Sennett, sociólogo americano, vive entre Nova York e Londres. Em seus livros, lança um olhar crítico à política, ao consumo e ao mundo do trabalho contemporâneos
“Em um mundo cada vez mais informatizado e mecanizado, o tema do novo livro do sociólogo americano Richard Sennett – O Artífice – soa nostálgico. Afinal, que papel resta ao trabalho manual no mercado de massa? Na sua obra – que acaba de ser lançada no Brasil –, Sennett afirma que é preciso resgatar o que identifica como a essência da habilidade artesanal: “O desejo de fazer um trabalho benfeito por si mesmo”. Para ele, boa parte das organizações modernas está matando a motivação de seus trabalhadores, apesar de buscar exatamente o oposto. Seu argumento é que existem duas fontes primordiais de motivação para os trabalhadores nas sociedades contemporâneas: “Uma é o imperativo moral de trabalhar pelo bem da comunidade; outra é a competição”. Sennett acredita que, em grande medida, essas fontes não são eficazes e têm gerado muita frustração e baixo engajamento. Portanto, é preciso “redescobrir o prazer no trabalho e o artesão em nós mesmos” para combater esses sentimentos.

Embora não seja um ludita disposto a jogar pedras nos computadores, o sociólogo também afirma que existe uma dimensão física, tátil, do trabalho, que precisa ser retomada tanto quanto possível. “Defendo uma tese polêmica, a de que todas as habilidades, inclusive as mais abstratas, têm início em práticas corporais”, disse ele a Época NEGÓCIOS.
Professor da britânica London School of Economics, esta não é primeira crítica de Sennett ao ambiente de trabalho moderno. Em seu livro de maior repercussão, A Corrosão do Caráter, publicado no final dos anos 90, ele descreve as transformações das corporações no século 20 e afirma que houve uma desarticulação da noção de carreira e da capacidade das pessoas encontrarem no trabalho uma “narrativa coerente” para suas vidas.

Sennett também é conhecido porque suas ideias foram fonte de inspiração para a Terceira Via britânica, doutrina formulada por seu colega Anthony Giddens e uma das principais bandeiras do governo do ex-primeiro-ministro Tony Blair. Aos 66 anos, o professor divide seu tempo entre Nova York e Londres e concedeu esta entrevista de seu apartamento em Manhattan.

O que o motivou a escrever O Artífice, um livro que trata de um tema tão incomum, o artesão? Gostaria primeiro de fazer um esclarecimento sobre a palavra “artesão”. Se por “habilidade artesanal” entendermos um estilo de vida que desapareceu com o advento da sociedade industrial – como é o caso dos construtores de catedrais na Idade Média, por exemplo –, realmente estaríamos sendo puramente nostálgicos. Porém, essa habilidade também designa um impulso básico e permanente do ser humano, que é o desejo de fazer um trabalho benfeito. Isso tem valor por si mesmo, e sobre isso há muito o que falar. Vivemos um paradoxo na nova economia: ao mesmo tempo em que as empresas buscam a excelência, é negligenciado, ou reprimido, o prazer que deveríamos sentir pelos frutos do trabalho. Existe aí um descompasso. Mais do que nunca, é urgente redescobrir o prazer no trabalho. Redescobrir o artesão em nós mesmos.

Não seria utópico, em pleno século 21, buscar este prazer artesanal com o trabalho? Absolutamente não. Muitos funcionários da Apple, por exemplo, experimentam tal prazer. Isso fica evidente quando se entra numa Apple Store aqui em Manhattan. A Apple só coloca produtos no mercado quando eles estão realmente prontos e são bons. Este cuidado artesanal está presente em todos os detalhes que envolvem a empresa, e é um motivo de orgulho para os seus funcionários. Isso é um vestígio típico dos ofícios artesanais.

O artesão pode ser transplantado para uma empresa de ponta em tecnologia? Quem fez isso? Sem dúvida. Tome como exemplo a Nokia. Eu vejo similaridades entre a transmissão de conhecimento tal como acontece dentro da empresa e as antigas oficinas de artesãos. Numa oficina de ourives em Bruges ou Veneza no século 15, a possibilidade, por parte do aprendiz, de absorver conhecimentos do mestre, e daí progredir e se tornar no futuro um mestre também, era palpável e até esperada. A Nokia possui redes de informações abertas aos funcionários. O conhecimento é compartilhado. Eu vejo nisso um típico exemplo de valorização do trabalho. O modelo da empresa é obviamente muito mais dinâmico e complexo do que o das guildas medievais, porém, demonstra um fato: não são apenas produtos que podem ser feitos de modo artesanal. As organizações podem ser trabalhadas artesanalmente em alguma medida.

Quais são então as lições que o artesão teria a nos ensinar? A primeira, fundamental, é que existe uma ligação intrínseca entre o que fazemos com o corpo e o nosso desenvolvimento intelectual e emocional. Eu defendo uma tese polêmica: todas as habilidades, inclusive as mais abstratas, têm início em práticas corporais. Vamos pegar o desenvolvimento cognitivo das crianças. Ele começa de forma tátil, com jogos de argila, por exemplo. Contudo, a civilização ocidental caracteriza-se por uma arraigada dificuldade de estabelecer ligações entre a cabeça e a mão. Existe um preconceito contra as atividades manuais. Eu creio que o desenvolvimento profissional das pessoas, seja lá em que profissão for, ressente-se deste problema.

Muita gente vai dizer que é impossível ter satisfação com o trabalho, e que é melhor buscar isso em um hobby... Hobbies são uma invenção maravilhosa da humanidade. Porém, isso seria restringir a questão. Não é o que fazer fora, ou além, das atividades que nos definem, profissional ou privadamente. Mas sim como canalizar este desejo de fazer algo benfeito para dentro de nossa vida. Veja a própria atividade de pai ou mãe. Criar os filhos pode ser visto como um processo artesanal: ele pressupõe certas capacidades, às quais a maior parte dos seres humanos são aptos; possui uma curva de aprendizado – é necessário um tempo para se adquirir a maestria; e, enfim, pode ser muito satisfatório. Existem muitas formas de se tornar um artesão.

Hoje fala-se muito da alienação dos executivos. Dá para fazer um paralelo entre ela e o tema do seu livro? Neste momento, eu conduzo em Nova York um estudo sobre o sistema financeiro. É absolutamente inacreditável o desconhecimento, por parte de muitos altos executivos, de princípios básicos da boa contabilidade. Ou seja, se negligencia a parte física, material ou manual deste sistema: o livro-caixa. Aliás, se pedissem o meu conselho para evitar crises como a que estamos passando, ele seria simples: os executivos das instituições financeiras deveriam passar temporadas – quinze dias, um mês, quanto fosse – trabalhando na área contábil. Eles aprenderiam muito. É claro que isso nunca vai ser feito (risos). É sintomático da tragédia moderna: a cabeça e as mãos estão separadas. Não só intelectualmente, mas socialmente também.

E o que dizer da geração do milênio? Existe uma preocupação quanto à falta de lealdade desses novos profissionais? É muito difícil para as pessoas respeitarem o seu emprego quando se trabalha 14, 16, 18 horas por dia, e as promessas feitas se revelam vazias. No fim, tudo o que resta é a alta pressão, longas jornadas e incerteza. Não dá para culpar os jovens por isso.

Como fica o computador? Ele não seria um inimigo do artesão? Não, não. O computador pode ser uma ferramenta muito útil. No livro, eu menciono a comunidade de programadores do Linux [sistema operacional de computador de distribuição gratuita e de código aberto]. É um exemplo vibrante e autêntico de artesãos modernos.

O senhor, além de sociólogo, é músico e também cozinheiro. Na culinária, a valorização de cozinheiros como o espanhol Ferran Adrià dá mostra de uma volta ao artesanal? Sim. Porém, eu creio que este não seja o melhor exemplo. Chefes como Adrià atuam numa região fronteiriça entre o artesanal e a arte. Uma arte efêmera, é verdade. Eu creio que o cozinheiro anônimo, que busca a precisão no talho das carnes e no corte dos legumes, é um exemplo mais acessível de artesão. Na China antiga, essa figura era celebrada. Buscar cortar os alimentos em tamanhos regulares, para permitir que fossem cozidos de forma mais uniforme, numa única panela, era uma forma de arte. Eu gosto deste exemplo. Mesmo em locais aparentemente hostis ao artesão – pense numa cozinha industrial – é possível resgatar o artesanal, o gosto pelo trabalho benfeito.
http://epocanegocios.globo.com/
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